quarta-feira, 22 de julho de 2009

Neruda...imperdível!



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Mais longe, já perto das fronteiras que me afastariam por muitos anos da minha pátria, chegamos à noite às últimas gargantas das montanhas. Subitamente, vimos urna luz acesa que era indício certo de habitação humana e, quando nos aproximamos, encontramos umas construções derruídas, uns galpões miseráveis que pareciam vazios. Entramos num deles e vimos, ao clarão do lume, grandes troncos acesos no centro da habitação, corpos de árvores gigantes que ali ardiam de dia e de noite e que deixavam sair pelas fendas do teto uma fumaça que flutuava no meio das trevas como um profundo véu azul. Vimos montões de queijos acumulados por aqueles que os coalharam naquelas alturas. Perto do fogo, agrupados como sacos, jaziam alguns homens. Distinguimos no silêncio as cordas de um violão e as palavras de uma canção que, nascendo das brasas e da escuridão, nos trazia a primeira voz humana que tínhamos encontra do pelo caminho. Era uma canção de amor e de distância, um lamento de amor ede saudade dirigido à primavera longínqua, às cidades de onde vínhamos, à infinita extensão da vida. Eles ignoravam quem nós éramos, eles nada sabiam do fugitivo, eles não conheciam a minha poesia nem meu nome. Ou o conheciam, nos conheciam? O fato real foi que junto àquele fogo cantamos e comemos, e depois caminhamos dentro da escuridão até uns quartos elementais. Através deles passava uma corrente termal, água vulcânica onde nos submergimos, calor que se desprendia das cordilheiras e que nos acolheu no seu seio.

Chapinhamos com gozo, penetrando naquela água, limpando o peso da imensa cavalgada. Sentimo-nos frescos, renascidos, batizados, quando ao amanhecer empreendemos os últimos quilômetros da jornada que separar-me-iam daquele eclipse da minha pátria. Afastamo-nos cantando sobre as nossas cavalgaduras, repletos de um ar novo, de um hábito que nos empurrava para o grande caminho do mundo que estava me esperando. Quando quisemos dar (recordo vivamente este fato) aos montanheses algumas moedas de recompensa pelas can ções, pelos alimentos, pelas águas termais, pelo teto e pelos lei tos, isto é,pelo inesperado amparo que encontramos, eles rejeitaram o nosso oferecimento sem um gesto. Eles tinham nos servido e nada mais. E nesse nada mais,nesse silencioso nada mais havia muitas coisas subentendidas, talvez o reconhecimento, talvez os próprios sonhos.
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Excerto do discurso de Neruda (em 1971 ) ao receber o Nobel de Literatura.
(Relato de seu exílio na cordilheira dos Andes)
http://www.lpm-editores.com.br/v3/artigosnoticias/user_exibir.asp?ID=516073&Showback=ON /Texto integral.

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