terça-feira, 3 de junho de 2008

Não foi há muito tempo que nasci...



«Saboreei por muito tempo a minha vida perdida; pensei com alegria que a minha juventude tinha passado, porque é uma alegria sentir o frio invadir-nos o coração, e poder dizer, tateando-o com uma mão, como uma lareira que ainda fumega: já não queima. Lentamente fui recordando todas as coisas da minha vida, ideias, paixões, dias de cólera, dias de luto, latejos de esperança, tormentos de angústia. Revi tudo, como um homem que visita as catacumbas e contempla lentamente, dos dois lados, os mortos alinhados uns a seguir aos outros.

Todavia, se contar os anos, não foi há muito tempo que nasci, mas tenho inúmeras recordações que me oprimem, como os velhos são oprimidos por todos os dias que viveram; às vezes, parece-me que já vivo há séculos, e que o meu ser contém os restos de mil existências passadas. Por quê? Amei? Odiei? Procurei alguma coisa? Ainda duvido; vivi à margem de todo o movimento, de toda a ação, sem me mexer, nem pela glória, nem pelo prazer, nem pela ciência, nem pelo dinheiro.
Ninguém, nem aqueles que me viam todos os dias, nem os outros, soube alguma coisa do que vai seguir-se…»


Novembro, de Gustave Flaubert

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