quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

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7.41hs .Chove.O silêncio da casa me incomoda.Os pardais no muro e os ipês mostram que a vida continua.E eu tenho medo...
Não quero chorar, mas ao olhar para a mesa vejo a chícara com um resto de café, o último de 24 anos.

Chovia mais forte , quando, ainda pela última vez, ouvi o barulho do alumínio na cozinha, o cheirinho adocicado do café na madrugada e ,com o coração aos pulos, me fiz a inevitável pergunta: estarei certa? 24 anos de vida em comum terminam como? Chora-se?Lamenta-se? Tenta-se fingir que nada está acontecendo e despede-se como gente civilizada? Simplesmente acabou.E apenas fim.

Chove.É preciso escrever para colocar para fora a sensação de fracasso e tristeza.Na mesa ao meu lado uma malha esquecida, contas atrasadas( a única herança...)duas crianças dormindo,cães no tapete, e uma certeza : é preciso ter coragem e recomeçar.Mas como é que se recomeça?

E enquanto tento inutilmente unir o começo e o fim...ah! de onde vem esse perfume?Busco à minha volta. Ficou também uma camisa usada , misto de colônia e suor da noite quente.

O que foi que aconteceu? Qualidades?...Defeitos?(como os meus), mas sobretudo mentiras. Mentiras que se amontoaram como tijolos mal colocados e ruiram, afinal.
Éramos quatro. Agora, somos três, cheios de expectativa, de vazio , de medo e...esperança.

O que devo fazer dessa manhã? São 8,04hs. Clareou, mas o dia permanece acinzentado.Cor de nada.Não posso lavar a alma enlameada, mas posso lavar o rosto e tirar o vestígio das lágrimas.É hora de reconstrução.Por cima da dor.

E reconstrução nada tem de poesia.É sólida e real, tem nome de saldo bancário, de sobrevivência, de pé-no-chão.Não há tempo, nem lugar, para lágrimas.Tenho que buscar o que sobrou de vida, encontrar as crianças, para juntas alçarmos võo.Para onde?
Não importa desde que voemos juntas.Quem sabe para o alto e para o azul.

Ah! Guimarães Rosa , estou precisando de você! " Ás vezes , o mundo parece demais de grande; outras vezes é pequenininho demais. A gente deve de esperar o terceiro pensamento".Tenho que encontrar o terceiro pensamento!Tenho!

Vou me levantar daqui e arrumar a casa, recolher os restos de algo que já passou.Tenho que fazer, sobretudo, essa limpeza dentro de mim.

8,17hs. Parou de chover(lá fora).

19 de janeiro de 1996.

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